Transparência Possivel
Correio Brasiliense-30/04/2004
EDITORIAL
Espera-se que entre
as conseqüências do processo movido contra o
senador João Capiberibe (PSB-AP), cujo
julgamento deve encerrar-se hoje no Tribunal
Superior Eleitoral (TSE), não venha a
desmoralização de um projeto seu que tramita no
Congresso que obriga a publicidade, via
Internet, de todos os gastos do governo federal.
O projeto de transparência de Capiberibe
coincide com a idéia que o controlador-geral da
União, ministro Waldir Pires, tenta implantar,
até agora em vão, desde o primeiro dia da era
Luiz Inácio Lula da Silva. A diferença é que, em
vez de mera intenção de um governo, o projeto de
Capiberibe, caso seja aprovado, passará a ser
lei, obrigatória para todos os presidentes e
suas equipes.
Qualquer que seja o
resultado do julgamento do senador, que é
acusado por duas eleitoras de ter comprado seus
votos por R$ 26, é preciso separar as coisas.
Como governador do Amapá, Capiberibe implantou
um sistema de publicação das contas do governo
que é simples de ser lido e é acessível a
qualquer cidadão com acesso a um computador. O
projeto é a prova de que são superáveis as
dificuldades técnicas que são colocadas pela
Secretaria do Tesouro para a disponibilização ao
público dos dados do Sistema Integrado de
Acompanhamento Financeiro (Siafi), o sistema no
qual são lançados diariamente todos os gastos da
União.
O programa bolado por Capiberibe é
mais simples e menos detalhado que o Siafi. Mas,
no Amapá, permite que se acompanhem os gastos do
governo. Todos os empenhos das secretarias e
demais órgãos são lançados ali. Quem quiser dar
uma olhada, basta acessar
www.amapa.gov.br/gestao. Como justificativa ao
seu projeto, Capiberibe fez uma auditoria em
contas do Fundo Estadual de Saúde, apenas com
base nos dados que o sistema permite. A consulta
exemplificada por Capiberibe mostra que, no dia
16 de outubro de 2003, houve uma despesa de R$
230,5 mil, cujo beneficiário foi a Globo
Distribuidora Ltda. Detalhando a despesa, vê-se
que foram gastos R$ 38 mil com solução de
cloreto de sódio, a um custo unitário de R$ 0,95
o frasco de 500 ml. Antes disso, no dia 26 de
maio de 2003, houve um outro empenho, para a
mesma Globo Distribuidora, de R$ 748 mil. Nesse
dia, comprou-se R$ 368 mil em soro fisiológico,
a um custo unitário de R$ 1,84 o frasco de 500
ml. Soro fisiológico e solução de cloreto de
sódio são a mesma coisa, com nomes
diferentes.
O que prova, então, o sistema
de Capiberibe? Que em duas compras do mesmo
produto feitas com a mesma empresa, com uma
distância de apenas cinco meses entre uma e
outra, houve uma diferença de quase R$ 1. Além
disso, impressiona a imensa quantidade de soro
fisiológico comprado. São mais de 300 mil
frascos de 500 mililitros de soro. A população
inteira do Amapá é de 500 mil habitantes.
Anote-se ainda que as compras foram feitas com
dispensa de licitação.
Poderia-se
argumentar que o Amapá é um estado pequeno, com
poucos habitantes, de administração menos
complexa que o governo federal. Bem, à revelia
dos esforços de Waldir Pires, já há um
ministério adotando por sua conta o sistema de
Capiberibe. Na divisão política feita no governo
Lula, coube como quota ao partido do senador do
Amapá, o PSB, o Ministério da Ciência e
Tecnologia. E, ali, o ex-ministro Roberto Amaral
adotou, e o atual ministro, Eduardo Campos,
manteve, sistema idêntico ao do
Amapá.
Todas as despesas do ministério
podem ser acessadas no site www.mct.gov.br. Na
página, clique em Projeto Transparência. Ali,
estão todos os empenhos da pasta, divididos por
órgão pela natureza da despesa. Uma rápida
consulta permite, por exemplo, saber que a
Agência Espacial Brasileira já gastou, desde o
início do ano, R$ 619,5 mil com passagens e
despesas aéreas. Todas essas despesas são pagas
a empresa Capri Turismo, Passagens e Excursões,
que venceu uma concorrência e foi contratada,
por um período de 12 meses, para fornecer
passagens nacionais e internacionais aos
funcionários da agência.
São exemplos de
que transparência é possível. Basta
querer.
Rudolfo Lago
Correio Braziliense
*Publicado por Nezimar Borges
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